Kamal Mansinho. “Em 2011, um teste positivo não é igual a morte”


O director de infecciologia do Hospital Egas Moniz falou com o i sobre os avanços da terapêutica actual e a importância de actualizar a informação sobre a doença.

A propósito do Dia Internacional de Luta Contra a Sida, Kamal Mansinho explica a importância de diagnosticar o VIH cedo, o que se traduz em maiores hipóteses de se viver mais tempo e com maior qualidade de vida. O director de infecciologia do Egas Moniz faz um retrato da situação em Portugal e fala sobre a necessidade de desmistificar a doença e acabar com estigma sobre os seropositivos.  
      
Há 30 anos, ser seropositivo significava quase uma sentença de morte. O que significa estar infectado com o VIH actualmente?
Há 30 anos havia um alto risco de desenvolver complicações associadas à doença, o que significava também um grande risco de morrer nos primeiros anos após o diagnóstico. Felizmente, nos últimos 20 anos, os avanços da ciência permitiram desenvolver medicamentos altamente eficazes que conseguem controlar a evolução da doença para as fases mais avançadas e os doentes acabaram por ser capazes de preservar a sua autonomia. Neste momento, uma pessoa diagnosticada a tempo tem probabilidade de sobreviver 40 anos. O panorama mudou significativamente quando comparamos o passado com o presente, e o futuro reserva-nos ainda novos avanços importantes, que podem aproximar ainda mais a sobrevivência das pessoas infectadas do nível de sobrevivência das não infectadas. Em 2011, um teste positivo já não é igual a uma morte.

A realidade da doença mudou, mas ainda há medo de fazer o teste…
Além do medo, há uma outra questão, que é o estigma que a esmagadora maioria da população continua a ter sobre a doença. A infecção por VIH pode acontecer a qualquer pessoa. Costumo dizer que para se ser infectado basta estar vivo e ser-se sexualmente activo. A infecção por VIH é cada vez mais uma infecção de todos, mas o receio da discriminação continua a inibir as pessoas de tomarem a iniciativa de fazer o teste. É importante que a informação actualizada chegue aos empregadores, aos bancos, às seguradoras. Porque muitas vezes os seguros nos processos de compra de casa continuam a ser feitos com base no conhecimento da década de 80. E isso acaba por ser um problema grave para as pessoas infectadas. É muito importante que o conhecimento actualizado possa chegar a todos os níveis da sociedade portuguesa. É o primeiro passo para se poder trabalhar a discriminação do ponto de vista comunitário, que actualmente é menos intensa, mas mais subtil.

Qual a diferença, em termos de tratamento, entre ser e não ser diagnosticado cedo?
Infelizmente, em Portugal, e na maior parte dos países europeus, cerca de 30% das pessoas infectadas desconhecem a sua situação. Se o doente for diagnosticado a tempo, a terapêutica, que já se pode resumir a um só comprimido, pode-lhe proporcionar enormes benefícios. Uma coisa é ter uma infecção por VIH e outra, diferente, é ter sida. Portanto, quando dizemos que as pessoas chegam tarde de mais ao sistema de saúde, estamos a dizer que muitas delas terão sido infectadas há dez ou 15 anos e já chegam com sintomas graves da doença. O que nos leva a presumir que chegaram tarde ao diagnóstico e os efeitos do tratamento também vão ser mais lentos. Em muitos desses doentes poderá não ser suficientes para os salvar.

As pessoas com VIH já podem ter filhos. Como se pode levar uma gravidez até ao fim sem contagiar a criança?
No caso de uma mulher infectada, o risco de transmissão da grávida para o recém–nascido, nos países onde está disponível a terapêutica anti-retrovírica, como em Portugal e na maior parte dos países industrializados, é inferior a 5%. Segundo alguns autores, pode até ser estimado entre os 0% e os 3%. Por exemplo, é menos provável que a criança tenha VIH do que ser contagiada por uma mãe portadora do vírus da hepatite B. No caso de infecção por VIH, é possível iniciar um tratamento anti-retrovírico nas mulheres grávidas infectadas. Deve-se acompanhar a gravidez de forma que a carga viral, isto é, a quantidade de vírus que a grávida tem a circular no sangue, seja abaixo da técnica de detecção, que está quantificada nas 50 cópias. O ideal é conseguir-se manter este parâmetro ao longo de toda gravidez. O maior risco ocorre durante o parto, mas os hospitais já estão preparados para que se reduza a contaminação ao mínimo nesse momento, nomeadamente através de cesarianas.

E no caso de ser o homem o infectado?
Se o homem estiver infectado e a mulher não, existem algumas técnicas de reprodução medicamente assistidas que permitem diminuir o risco para a mulher no acto da concepção. Existem técnicas de lavagem de esperma que permitem reduzir, mas não anular, o risco de transmissão de VIH à mulher não infectada. Circunstancialmente, em situações muito bem acompanhadas e estudadas, e quando a carga viral do homem é inferior a 50 cópias, e se ele não tiver uma doença que aumente transitoriamente este valor, pode–se assistir o casal na perspectiva de definir relações sexuais durante o período fértil de modo que a gravidez possa ocorrer. Não há garantia de que a infecção não ocorra e por isso esta escolha deve ser muito bem ponderada pelo casal. O risco de lavagem de esperma é muito mais baixo em termos de transmissão que o risco do indivíduo com menos de 50 cópias.

A terapêutica anti-retrovírica mantém os níveis de carga viral muito baixos. A carga viral menor que 50 cópias é o que se denomina carga viral indetectável?
É aquilo que nós designamos por carga viral indetectável ou negativa, mas não existe carga viral indetectável nunca. A carga viral inferior a 50, que às vezes é designada como negativa, diminui significativamente o risco de transmissão, mas não o anula. Uma coisa é ter 50 mil cópias, em termos de risco de transmissão, e outra coisa é ter menos de 50 cópias. O risco de transmissão de uma pessoa infectada é maior no caso de a carga viral ser mais elevada. Agora não podemos garantir nunca que aquele que tem menos que 50 cópias não transmite a doença.

Em Portugal poucos hospitais fazem a lavagem de esperma. As listas de espera podem desanimar os casais e nas clínicas privadas o processo é caro…
Na população de casais serodiscordantes, que são seguidos no Hospital Egas Moniz, e apesar de todos esses constrangimentos em termos de lista de espera, os casais tendem a optar pelas técnicas de lavagem de esperma. Porque gerir a incerteza numa gravidez é muito difícil e pode ser perturbador para os casais.

Giuliana Diaz/iOnline – 01.12.2011

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