Moçambique: População deve evitar euforia com fábrica de antiretrovirais e apostar na prevenção, alerta Joana Mangueira


Para analisar a resposta moçambicana contra o HIV e Sida neste ano, a secretária executiva do Conselho Nacional de Combate ao Sida (CNCS), Joana Mangueira, concedeu uma entrevista a esta agência.

Dra. Joana reforçou que com a diminuição mundial de recursos financeiros para o enfrentamento da Sida, é urgente aplicar as verbas em acções que dão resultados. Ela alertou ainda a população a não abdicar da prevenção, mesmo com a instalação da fábrica de antiretrovirais no País, prevista para ser inaugurada em 2012. “Temos que ter cautela e evitar a euforia. Mais uma vez, as pessoas devem saber que a Sida não tem cura e que a prevenção é a melhor estratégia”, comentou.

Leia a seguir na íntegra:

Agência de Notícias de Resposta ao SIDA: O Inquérito Nacional de Prevalência, Riscos Comportamentais e Informação sobre HIV e SIDA em Moçambique (INSIDA), referente a prevalência do HIV no País em 2009, mostrou uma taxa de seroprevalência nacional de 11.5%, contra os anteriores 16.2%. Podemos afirmar que a epidemia está a diminuir em Moçambique?

Joana Mangueira: Trata-se de uma pergunta que exige uma explicação exaustiva e também didática, dada à sua complexidade. Ora vejamos:
A estimativa de prevalência encontrada no INSIDA foi de 11,5% nos adultos de 15-49 anos e é mais baixa em comparação aos 15% obtidos através da Ronda de Vigilância Epidemiológica do HIV e Sífilis em 2009, mas essa diferença se deve principalmente à diferença no processo de recolha de informações. As estimativas são diferentes porque os dois métodos são também diferentes. A Ronda inclui somente mulheres grávidas, enquanto o INSIDA inclui a população moçambicana em geral.

A Ronda de Vigilância Epidemiológica do HIV é um sistema de recolha de informação de mulheres grávidas atendidas em postos sentinela durante a sua primeira consulta pré-natal. Esse tipo de pesquisa teve início em 1988 e continua até hoje. Ele permite seguir as tendências da epidemia ao longo do tempo (normalmente com um intervalo de dois anos) e comparar diferentes regiões do País. Os dados deste tipo de estudo tendem a sobrestimar o nível da prevalência dos países, ou seja, a prevalência medida através dos postos sentinela é maior do que se encontra na população geral.

Agência: O governo tem vindo a diminuir o valor do Orçamento do Estado que aloca para a área de Saúde. O CNCS também não escapa à redução do orçamento. Que constrangimentos isto traz ao CNCS?

Joana Mangueira: Devemos olhar para os constrangimentos existentes com objectividade, sem grandes sobressaltos e nunca parar. Caminhar com as nossas próprias forças. O nosso esforço tem incidido na identificação de actividades-chave baseadas em evidências, que poderão contribuir para fazer a diferença. Gostaria de referir, como exemplo, o facto de Moçambique pretender reactivar um forte movimento para o reforço do activismos juvenil para a prevenção do HIV. Devemos-nos inspirar no princípio de fazer mais e melhor, com menos, mantendo bem alto um forte movimento de advocacia para uma maior apropriação nacional da resposta.

Agência: Em função da redução dos fundos e, sobretudo, com a introdução de novas regras de acesso ao dinheiro a partir de 2010, muitas ONGs no país estão a desaparecer. Que implicações isto pode criar a curto, médio e longo prazos?

Joana Mangueira: Trata-se de uma situação difícil, certamente. Assiste-se a um afrouxamento dessas actividades, infelizmente. Porém também encontramos organizações que recorrem a soluções locais, sobretudo no domínio da nutrição, complementando a sua acção através de uma maior aproximação com as unidades sanitárias. Reforçam o conhecimento das comunidades em matéria de saúde, na sua concepção mais abrangente. Houve ganhos que foram atingidos e que em alguns casos estão a ser adequadamente replicados.

A apropriação nacional da resposta bem como a sua sustentabilidade fazem parte dos grandes desafios que estamos a enfrentar.

Agência: Para além dos núcleos provinciais, quantas organizações beneficiaram dos fundos do CNCS este ano?

Joana Mangueira: Estamos centrados na nossa função de Coordenação, Monitoria e Avaliação e Comunicação. O realinhamento das competências do CNCS não contempla, desde 2009, a gestão e a consequente aplicação de fundos em subvenções. Porém, existem outros financiamentos que determinadas organizações internacionais têm vindo a prestar aos implementadores, nomeadamente o PEPFAR (Plano de Emergência do Presidente dos EUA para o Alívio do SIDA)e o Fundo de resultados Rápidos, administrado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

Agência: Na Assembleia Geral das Nações Unidas sobre HIV e Sida realizado em Junho último em Nova Iorque, os participantes, incluindo de Moçambique, assumiram o compromisso de redução de novas infecções para 5%; a irradicação da discriminação para com as pessoas vivendo com o HIV e Sida, bem como o acesso universal ao tratamento antiretroviral até 2015…

Joana Mangueira: A Declaração da ONU estabelece metas globais e sugere que cada País, depois de uma análise profunda da epidemia e da capacidade instalada, possa definir metas conducentes à meta global. Moçambique vai revitalizar as suas acções de prevenção e concentrar naquelas que tem maior impacto no número de novas infecções por HIV. Deste modo, o País poderá assegurar que as pessoas que mais precisam das acções de prevenção tenham acesso a elas e que as mesmas sejam de melhor qualidade. Quanto à discriminação, é uma meta que o País pode alcançar com envolvimento da sociedade em geral, mas sobretudo das famílias e das comunidades, onde no geral, começa a discriminação. Continuaremos a trabalhar com as lideranças a todos os níveis e envolvendo pessoas vivendo com HIV e Sida nas acções de luta contra a discriminação.

O acesso universal ao tratamento é um dos maiores desafios para o País. Temos cerca de 1.4 milhões de pessoas infectadas e cerca de 40% serão elegíveis para o tratamento, o que representa acima de 500 mil pessoas que vão precisar de tratamento até 2015. O País vai continuar a prestar uma atenção especial a esta área, assegurando que os que iniciam o tratamento continuem em tratamento e que os recursos estejam disponíveis para continuar com a expansão.

Agência: A partir de 2012, o nosso País terá em actividade uma fábrica de antiretrovirais a funcionar. O que isto vai representar para o governo de Moçambique e para os moçambicanos infectados pela doença?

Joana Mangueira: É uma janela de oportunidade que se abre, resultante do esforço abnegado do nosso governo no âmbito da cooperação existente com o Brasil e de outras partes que contribuíram para a sua existência. Mas, temos que ter cautela e evitar a euforia. Mais uma vez, as pessoas devem saber que a Sida não tem cura e que a prevenção é a melhor estratégia. Para as pessoas infectadas, esta poderá ser mais uma oportunidade que se abre, ou seja, mais uma fonte adicional de medicamentos que irá contribuir substancialmente para a expansão da nossa capacidade de atendimento.

Ricardo Machava/Agência SIDA -15.12.2011

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

  • Indique o seu endereço de email para subscrever este blog e receber notificações de novos posts por email.

    Junte-se a 28 outros seguidores

%d bloggers like this: