Ruanda tenta reduzir herança maldita: os altos índices de transmissão de aids das mães para os filhos


País possui uma das maiores taxas de contágio vertical do mundo: 20% dos 170.000 casos de HIV foram transmitidos de mãe para filho. Programa, financiado pelo Fundo Global, tenta mudar esse quadro.

Uma vez por mês, Mukabutwali Julienne caminha 12 quilômetros. De sandálias baixas, com a pequena Josiane presa às costas por uma faixa de tecido, ela segue o curso da movimentada estrada de terra de sua casa até a Kicukiro Clinical Services, no distrito de Kicukiro, interior de Ruanda. Foi na clínica que Julienne descobriu, quando estava grávida de seu quarto filho, que era portadora do vírus HIV. Angustiada, com medo de que a criança nascesse infectada, ela deu início ao tratamento preventivo oferecido gratuitamente no país. O receio de Julienne tem fundamento. No país, 20% dos 170.000 casos de HIV foram causados pela transmissão vertical, de mãe para filho – outros 75% acontecem dentro de relacionamentos heterossexuais. Os 5% restantes se referem a outras formas de contágio.

A prevenção da transmissão vertical, de mãe para filho, durante a gravidez, é uma das maneiras mais seguras e efetivas de reduzir as taxas de infecção em crianças. Em Ruanda, o programa, que é financiado pelo Fundo Global, vem ganhando fôlego e estabilidade: em 2005, havia 209 centros especializados espalhados pelo país, hoje são 404 — um crescimento de 93% em cinco anos. Dentro das clínicas de referências, os índices de transmissão registram uma queda que beira à vitória. A Kicukiro Clinical Services é um exemplo. Das cerca de 100 gestantes sendo acompanhadas, 10 são HIV positivo e estão em tratamento com antirretrovirais. Os índices de transmissão vertical caíram de 10% em 2007 para 1,5% em 2010. “A meta é chegar a um índice de transmissão de 0% em até três anos”, diz o médico Albert Tuyushime, um dos responsáveis pelo programa de transmissão vertical na clínica.

Distante cerca de uma hora da capital Kigali, a clínica em Kicukiro atende 1.726 pacientes portadores de HIV. Desse total, 94 são crianças menores de cinco anos. Todos recebem de maneira gratuita o tratamento. Há ainda 164 recém-nascidos expostos ao vírus, mas ainda em tratamento preventivo e sem diagnóstico definitivo, que é realizado apenas quando o bebê completa 18 meses de vida. O número de crianças expostas ao vírus ainda é alto. Isso se deve principalmente à desinformação dos pais, mas também aos traços culturais que prevalecem em cidades pequenas e rurais de Ruanda. “A mulher precisa engravidar, do contrário pode não ser muito bem vista pela comunidade”, diz o médico.

Aretha Yarak

Mukabutwali Julienne com a filha JosianeJulienne com a filha Josiane

Dados nacionais mostram que 4% das mulheres que estão grávidas no país são portadoras do vírus da Aids — a média nacional de infecção é de 3%. Em Kicukiro, cerca de 10% das gestantes acompanhadas estão infectadas e recebem o tratamento gratuitamente. De acordo com o protocolo de Ruanda, toda mulher grávida é obrigada a fazer o teste de HIV. Caso seja positiva, ela tem o direito de receber o medicamento até o sexto mês após o nascimento do bebê, período que cobre o tempo recomendado de amamentação.

Parceria — A primeira consulta na clínica costuma ser feita após a recomendação da agente social responsável em orientar os moradores de cada vila. Na chegada, é necessário que a mulher esteja acompanhada do marido ou do pai da criança, para que os dois possam fazer os testes para o HIV. Do contrário, ela terá de explicar o motivo da ausência do parceiro. “Estamos tentando incluir o homem nos programas de prevenção, porque percebemos que com a presença da família os resultados são melhores”, diz Sabin Nsanzimana, um dos responsáveis pelo programa de prevenção à aids em Ruanda.

O esforço já está começando a surtir efeito. Só em Kicukiro, das 90 gestantes que estão sendo acompanhadas, 71 têm o marido ao lado na maioria das consultas — Julienne é uma delas. Em 2003, dados nacionais mostravam que apenas 14,16% dos parceiros haviam sido testados para o HIV. Com o novo protocolo, a mudança foi drástica. Em julho de 2011, o número já havia saltado para 86%. “Isso é uma força considerável na luta para o fim da transmissão vertical”, diz Albert Tuyushime.

Diagnóstico precoce — Julienne, 30 anos, ainda não sabe qual será a sorte da filha Josiane, de dois meses. Apesar dos testes iniciais terem indicado que, por ora, o bebê é negativo, ainda é preciso esperar pelo diagnóstico final aos 18 meses de vida. Até lá, ela deve continuar com o tratamento profilático e com as visitas mensais à clínica.

O acompanhamento ao recém-nascido é fundamental para que o tratamento seja iniciado o quanto antes, caso necessário. “A maioria dos bebês que nascem com o vírus e não são diagnosticados morrem aos dois anos de idade. É muito importante que o diagnóstico seja feito o quanto antes”, diz Tuyushime.

Julianne tem três filhos mais velhos, frutos do primeiro casamento. O mais novo dos três já fez o exame e é negativo. Em relação aos outros dois, no entanto, ainda há dúvidas. “Agora que sei que sou portadora do vírus, não pretendo mais ter filhos, é muito arriscado”, diz. A resolução não dura muito tempo. Com olhos tímidos e sem graça, ela confessa: “Mas não sei ainda como vou evitar uma nova gravidez.”

Aretha Yarak/Veja – 26.11.2011

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