Fundo Global: O maior financiador da luta contra a malária, a tuberculose e a sida não tem dinheiro


Até 2014, este fundo internacional não terá meios para conceder novas ajudas. A culpa é da crise – e de um mundo em mudança.

Durante os próximos dois anos, não será possível ao Fundo Global para Luta contra a Sida, a Tuberculose e a Malária conceder novas ajudas para enfrentar as doenças infecciosas que mais matam no mundo. A culpa é atribuída à crise internacional e isto é grave porque este fundo é, realmente, o maior financiador em termos globais da luta contra estas doenças que pesam desmesuradamente nos países mais pobres do planeta.

“Dificuldades de orçamento substanciais em alguns dos países dadores, a que se adicionaram as baixas taxas de juro, afectaram de forma significativa os recursos disponíveis para a atribuição de novos apoios”, anunciou o fundo, após uma reunião da direcção, em Acra, no Gana. O director executivo Michel Kazatchkine foi também afastado da gestão.

Este é um fundo público-privado, nascido a partir do G8, como uma alternativa à burocracia da ONU. Aceita dinheiro de nações – como Portugal, que entre 2003 e 2010 entregou 14.392.600 dólares dos 15 milhões prometidos, segundo as contas apresentadas no site, http://www.theglobalfund.org/ – e também de fundações, como a de Bill e Melinda Gates, ou empresas, como a petrolífera Chevron.

Na última década, concedeu apoios no valor de 22.400 milhões de dólares em 150 países para a prevenção, tratamento e cuidados de saúde contra a sida, malária e tuberculose – as três doenças infecciosas que mais matam. Representa hoje um terço do financiamento internacional para a luta contra a sida, e é deste fundo com sede em Genebra que vem a maioria do dinheiro destinado a lutar contra a malária e a tuberculose, adianta a Reuters.

Não é a primeira vez que o fundo enfrenta problemas. No ano passado, não conseguiu os 13 mil milhões de dólares de que precisaria, no mínimo, para manter os seus programas. Conseguiu apenas 11.500 milhões, bem menos que os 20 mil milhões que eram o seu alvo.

Mas a culpa não será apenas da crise económica e financeira. Nos últimos anos, o fundo tem enfrentado acusações de falta de regulação e controlo da atribuição do dinheiro, e até mesmo de corrupção.

Em Setembro, uma auditoria recomendou que o fundo pusesse em prática salvaguardas financeiras mais duras, em resposta a um vendaval de críticas e dúvidas de alguns dos seus principais dadores. Em causa estavam artigos da Associated Press (AP), em Janeiro, revelando a perda de dezenas de milhões de dólares devido a má gestão e fraudes no Mali, Mauritânia, Djibuti e Zâmbia. A Alemanha, por exemplo, suspendeu as contribuições durante algum tempo.

O fundo tem de fazer modificações, isso parece certo. Entre elas, escolher os projectos que de facto precisam de apoio, e os que podem e devem ser apoiados pelos Estados. “Temos de tomar algumas decisões difíceis para proteger algumas vitórias”, disse à AP Simon Bland, secretário do fundo.

Entre elas está já a decisão de que 800 a 900 milhões de dólares de apoios que estavam planeados para atribuir a acções na China, Brasil, México e Rússia serão usados para outros fins – e esse é um caminho a seguir.

Economias emergentes como estas, que receberam muitos apoios, deverão deixar de ser beneficiadas, para que o dinheiro seja canalizado para países mais necessitados.

Uma maior atenção à redução dos custos e uma avaliação dos programas concentrando-se nos resultados – e não numa contabilidade de medicamentos distribuídos, por exemplo – são outros caminhos a seguir, dizia ontem o Financial Times.

Clara Barata/Público – 26.11.2011

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