Mais anúncios a oferecer sexo desprotegido


Projecto de educação para a saúde faz balanço de três anos de intervenção no Grande Porto, hoje, no seminário Trabalho Sexual e Direitos Humanos.

“Alta, super elegante e sensual. O [oral]. natural.” Multiplicaram-se os anúncios de serviços sexuais e cada vez mais há referências explícitas a sexo desprotegido. A ilação é de quem faz parte do Porto G, projecto da Agência Piaget para o Desenvolvimento.

A equipa começou por telefonar a anunciantes, a oferecer os seus préstimos. Desde 3 de Fevereiro de 2009, entrou em 134 apartamentos, casas de massagem, bares de alterne e outros espaços e contactou com mais de 500 profissionais do sexo, quase todos do sexo feminino. “Possuem crenças e conhecimentos limitados acerca do VIH e de outras doenças sexualmente transmissíveis”, conclui-se no relatório final, a apresentar amanhã, no seminário Trabalho Sexual e Direitos Humanos, que o Porto G organiza na Fundação Engenheiro António de Almeida, no Porto.

Em conversas com prostitutas que tendem a demorar mais de uma hora, a equipa ouve falar em comportamentos de risco “tão enraizados que requerem tempo para serem desafiados e modificados”. Colecciona exemplos, o coito desprotegido com clientes conhecidos, o uso de dois preservativos em simultâneo, o recurso a óleos em vez de lubrificantes, o sexo oral desprotegido, a interrupções voluntárias da gravidez sem vigilância médica…

“O trabalho sexual atravessa uma fase sem precedentes em Portugal, reflexo de uma crise que se faz sentir em quase todos os sectores da economia”, escreve-se, no documento a que o PÚBLICO teve acesso. Há “cada vez mais” anúncios, explica a coordenadora, Aline Santos. Mediante tanta concorrência, descem os preços dos serviços (há mulheres a cobrar 20 euros e transexuais a cobrar 50) e sobe a “oferta de prestação de sexo desprotegido”.

Numa semana de Junho deste ano, num único jornal nacional, a equipa encontrou 1706 anúncios de trabalho sexual. Ora, 271 apregoavam práticas sexuais desprotegidas.

A equipa não se limita a fazer educação para a saúde. Também entrega “ferramentas” que permitam realizar o trabalho sexual “com menos risco”. Nas visitas domiciliárias, distribuiu 51.712 preservativos masculinos, 9999 femininos, 14.204 extrafortes, 4295 de sabor, 31.909 lubrificantes e 488 bandas de látex. Nos acompanhamentos, outros 7355 preservativos masculinos, 1710 femininos, 1805 extrafortes, 597 de sabor e 4360 lubrificantes.

Há um interesse crescente pelo preservativo feminino. “A primeira reacção foi de estranheza”, diz Aline Santos. “Fomos dizendo para cada uma experimentar, num ambiente mais confortável, com o companheiro.” Agora, muitas usam-no, sobretudo, para atender clientes com problemas de erecção. Outras ainda a desconfiarem da sua eficácia, referem desconforto, temem “deseducar” os clientes.

A maior resistência ao uso do preservativo vem dos clientes. “É fundamental informá-los e co-responsabilizá-los”, defende a mesma técnica. Desde Maio de 2009, todos os meses, o Porto G publica um anúncio, na secção de Relax do tal jornal, a oferecer “apoio e confidencialidade a clientes”.

O ambiente, amanhã, será de alguma incerteza. O financiamento da Coordenação Nacional para o VIH-Sida terminou em Outubro. A candidatura para um Porto G reformulado foi apresentada em Maio, mas aguarda ainda resposta. A Agência Piaget para o Desenvolvimento está a mantê-lo, enquanto espera luz verde para continuar no Porto e alargar a intervenção a Lisboa. “O que se gasta em prevenção é muito menos do que o que gasta em tratamento. Uma pessoa com sida custa dez mil euros por ano ao Estado, uma equipa destas custa 57 mil euros por ano”, remata Aline Santos.

 

Grande rotatividade

Brasileiras representam maioria de profissionais contactadas


Mais de metade (52%) dos trabalhadores do sexo a que o Porto G conseguiu chegar está em permanente mudança: trabalha 15 dias num apartamento e salta para outro.

Reflexo do peso do efeito novidade, mas também da origem dos trabalhadores do sexo: 22% portugueses, 78% migrantes. Os trabalhadores de nacionalidade brasileira parecem dominar a prostituição de interior no Grande Porto: representavam 73% do total, contra 1% da Roménia, 1% da Colômbia, 3% de outras nacionalidades (como Moçambique, Nigéria, Equador e Venezuela). Ao longo dos três anos, o peso das portuguesas foi aumentando. Talvez por haver uma maior integração do projecto junto de um público-alvo, ressalva a coordenadora. Quem exerce prostituição no seu país tende a proteger-se mais, a ser mais inalcançável: teme ser reconhecido, sofrer reprovação social.

Ana Cristina Pereira/Público – 24.11.2011

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