Peru cria alternativas para combater tuberculose e malária


Um toque de recolher e um programa de capacitação para o cultivo de vegetais hidropônicos. Estas são algumas alternativas de tratamento contra a malária e a tuberculose multirresistente utilizadas no Peru.

Malária impõe toque de recolher no Peru

O dia termina cedo no pequeno povoado de Caserío San Pedro, na Amazônia peruana. Por volta das 18 horas, os cerca de 350 moradores vão para suas camas e lá permanecem até a manhã do dia seguinte. Esse, no entanto, não é um hábito que nasceu com a comunidade, há 92 anos. A regra foi instituída em 2008, quando teve início um projeto de combate à malária na região.

“O objetivo é evitar o horário que o mosquito transmissor da doença sai para se alimentar”, explica Felix Gutierrez, agente comunitário de saúde e morador local. “Não foi difícil convencer a população. Ninguém aqui quer ficar doente”, diz ele, com a experiência de quem já contraiu malária três vezes e a descreve como uma dor insuportável e uma sensação de frio que parece congelar os ossos.

Mas se esconder dentro das casas rusticamente construídas com ripas de madeira e cobertas de palha não é suficiente. As camas, também feitas de madeira e palha e revestidas com tecido, têm de ser protegidas com mosquiteiros especiais, impregnados com inseticida capaz de manter os insetos longe por cinco anos.

As telas de proteção foram doadas pelo Projeto de Controle da Malária nas Áreas de Fronteira da Região Andina (Pamafro), que em cinco anos reduziu em 85% os casos de malária e em mais de 70% a mortalidade pela doença em 51 distritos peruanos, onde moram 1 milhão de pessoas. A iniciativa teve financiamento do Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária.

A estratégia. Gutierrez tem a missão de ensinar a população de Caserío San Pedro a usar os mosquiteiros, queimar o lixo e não deixar acumular água parada, para evitar que o ambiente se torne propício para a proliferação do mosquito Anopheles. Sua mais importante tarefa, porém, é notificar o posto de saúde mais próximo – a 40 minutos de caminhada na mata e mais uma hora de barco – sempre que alguém fica doente. Mas antes ele aplica testes sanguíneos nos demais moradores para identificar  possíveis contaminados e garantir tratamento imediato.

Essa estratégia é a chave para evitar a disseminação da malária, explica o imunologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Maurício Rodrigues. Isso porque, ao picar uma pessoa doente, o mosquito se contamina com o parasita causador da enfermidade – o Plasmodium – e o transmite para sua próxima vítima. “Um único doente sem tratamento pode, em uma semana, resultar em 50 novos casos”, diz Rodrigues.

Em 2007, quase metade da população de Caserío San Pedro estava acometida. “Para onde você olhava havia malária. Meus vizinhos, filhos e netos caíram de cama”, lembra Javier Valencia, de 62 anos, descendente de um dos fundadores da vila. “A doença me agarrou pela primeira vez aos 40 anos. Quase morri. Foram 15 dias de febre sem saber a causa. Não havia malária por aqui até então.” Mal tinha se recuperado, seis meses depois, Valência se tornou novamente vítima do Anopheles.

No auge da epidemia, a comunidade chegou a registrar 20 novos casos por mês. “Éramos uma zona de emergência sanitária”, conta Marcos Hoyos, “tenente-governador” do povoado. Em outubro deste ano, apenas o garoto Darwin Macahuachi, de 8 anos, ficou doente. Em toda a região de Loreto, nordeste do Peru, os casos caíram de 15 mil para 900 por ano. Nenhuma morte foi registrada desde 2008.

Mas o projeto Pamafro e o financiamento do Fundo Global terminaram em 2010. Agora, o Ministério da Saúde peruano tenta manter a iniciativa com recursos próprios. “As ações continuam, mas não com a mesma periodicidade. Poderíamos estar em melhores condições”, admite Teresa Chunga, técnica do ministério.

O caso brasileiro. No Brasil, os casos de malária também estão em queda. Segundo dados do Ministério da Saúde, o número passou de 168 mil para 115 mil nos primeiros seis meses deste ano, em relação ao mesmo período de 2010 – redução de 31%. As internações tiveram queda de 20%, passando de 2,5 mil para 2 mil. Mas os índices ainda são altos.

Por aqui, as ações de combate à doença também contam com apoio do Fundo Global, que doou cerca de R$ 30 milhões. O dinheiro está sendo usado na aquisição de 1,1 milhão de mosquiteiros, distribuídos nos 47 municípios da Amazônia Legal com mais casos de malária no País. Também ajudou na compra de testes de diagnóstico rápido e no trabalho de conscientização dos moradores sobre como se proteger da doença.

O financiamento, porém, termina neste ano. Jarbas Barbosa, secretário de Vigilância em Saúde do ministério, afirma que o País não terá dificuldade para manter o trabalho.

“A estratégia brasileira se baseia na busca ativa dos casos. Os agentes de saúde vão de casa em casa e perguntam se tem algum doente”, conta Maurício Rodrigues. Mas, por medo dos efeitos colaterais do tratamento, muitos contaminados negam sua condição e acabam se tornando foco de proliferação da doença. “É um trabalho sem fim, como enxugar gelo. Mas, se deixar correr solto, haverá uma epidemia que vai afetar milhões.”

Para entender

Caserío San Pedro foi fundado há 92 anos por quatro famílias: Macahuachi, Torres, Coral eMozombites.

Hoje moram no local, situado às margens do Rio Nannay,umafluente do Amazonas, cerca de 350 pessoas.

Elas seguem a religião católica e se dedicam à agricultura e ao artesanato.

Confeccionam bolsas e leques com a fibra da planta chambira, que vendem nas feiras de Iquitos – maior cidade da região. Não há médicos ou posto de saúde no povoado.

Tuberculose é outro fardo Peruano

A tuberculose multirresistente – causada por bactérias capazes de sobreviver a várias classes de antibióticos – é outro grande problema de saúde pública no Peru. Enquanto no Brasil esses casos não ultrapassam 1,5% do total, no país vizinho correspondem a mais de 20%.

O impacto disso nos gastos públicos de saúde é gigante, pois, se o tratamento convencional dura seis meses e custa cerca de R$ 90, são necessários dois anos e cerca de R$ 3,6 mil para eliminar a bactéria multirresistente. O prejuízo na qualidade de vida dos doentes – submetidos a injeções diárias com até sete medicamentos – é ainda maior. As drogas afetam os rins, o fígado e o estômago. Muitos desistem e acabam morrendo.

Para aumentar a adesão dos afetados ao tratamento, foi criado, em um centro de saúde da cidade de Lima, um programa de capacitação para o cultivo de vegetais hidropônicos.

“Os pacientes deixam de trabalhar durante o período do tratamento. Precisam de uma fonte de renda alternativa. Mas, como ficam muito debilitados, tinha de ser uma atividade que não exigisse esforço físico”, explica o nutricionista Miguel Barrientos, coordenador técnico do projeto. A iniciativa, que começou em 2008, é uma parceria entre a ONG Prisma e os Ministérios da Saúde e da Agricultura e integra as ações financiadas pelo Fundo Global no país.

A travesti Mary Yarleque, de 38 anos, conta que antes de aderir ao programa sofria terrivelmente com os efeitos do tratamento. “Doía a cabeça, o estômago, tinha muita náusea. Esse contato com a natureza ajudou a me distrair e a esquecer a doença”, afirma. Hoje, curada, Mary dedica suas manhãs a transmitir o conhecimento adquirido para outros pacientes. O cultivo de hidropônicos também virou seu principal meio de sustento. “Vendo no mercado, para os vizinhos e até para os médicos do centro de saúde”, conta.

O Brasil se livrou do fardo da tuberculose multirresistente graças ao protocolo rígido de tratamento adotado há 30 anos. Os antibióticos usados contra a doença foram retirados das farmácias e só podem ser obtidos – de forma gratuita – nos centros do Sistema Único de Saúde. No Peru, por outro lado, cada médico adota o tratamento que lhe convém e não há remédio de graça para todos. Isso contribuiu para o abandono da terapia e a criação de superbactérias.

O Estado de S.Paulo – 06.11.2011

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