Despesa com tratamento​s do VIH/sida está a aumentar 10% ao ano


A despesa com tratamentos de doentes com VIH/sida, só com medicação, está a aumentar cerca de 10% ao ano. A síntese de execução orçamental de Outubro revela que os hospitais-empresa conseguiram reduzir 4,8% a despesa, poupança em que entra a negociação de preços de medicamentos como anti-retrovirais.
Ainda assim, e segundo os últimos dados disponíveis no Infarmed, até Agosto os tratamentos representavam já uma despesa de 139,5 milhões de euros, mais 11,3% do que em Agosto do ano passado. Em 2007, o último ano disponível no site do Infarmed, a despesa anual em medicação dispensada em meio hospitalar rondou 117,8 milhões de euros – o Estado gastou em 12 meses de tratamentos menos 15% que nos primeiros oito meses de 2011. Medicação inovadora – onde se destaca o comprimido único que junta as três substâncias activas Efavirenz + Emtricitabina + Tenofovir) –, mas um número cada vez maior de doentes em tratamento, fazem com que a despesa não pare de aumentar. E sem travão à vista, a menos que se adopte uma nova postura de prevenção e não se recue nos tratamentos, alertaram dois especialistas internacionais no custo/benefício da resposta ao VIH/sida.
José Gattel, director das Unidades de Doenças Infecciosas e de Sida da Clínica Hospitalar de Barcelona, e Calvin Cohen, director de Investigação da Comunity Research Initiative de Nova Inglaterra e da Harvard Vanguard Medical Associates, vieram esta semana ao Porto participar no 12.o Encontro Nacional de Actualização em Infecciologia do Hospital Joaquim Urbano. Em entrevista ao i, deixaram claro que a actual contenção nos orçamentos da saúde é um problema que é tudo menos nacional. O VIH/sida, como uma das rubricas que mais consomem recursos financeiros na saúde, não deve por isso ser descurado, sublinham.
Se por um lado os novos genéricos podem ajudar a baixar uma despesa que em Portugal ronda os 180 milhões de euros (mais 10%  em 2010 que no ano anterior), recuar por razões financeiras nos cocktails de medicamentos que hoje já podem ser substituídos por um único comprimido poderá ter consequências negativas.
“É um momento que não é nada fácil, mas a ideia que subjaz é que o sistema público de saúde tem de ser sustentável e temos de ser capazes de manter um sistema universal e gratuito para todos os que precisem. Para alcançar este objectivo teremos de fazer alguns sacrifícios”, diz Gattel, co-autor das guidelides espanholas para o VIH/sida, instrumento que em Portugal ainda não existe e, segundo o especialista, pode garantir que em tempos de crise são feitos os tratamentos mínimos aos doentes.
Para este especialista, que diz sentir em Espanha a pressão para reduzir os custos, a sida é uma área onde sempre houve um grande esforço de racionalidade, pelos custos elevados da medicação. Como reduzir então os preços? “Vejo duas vias. A primeira é que a indústria se dê conta de que o custo dos tratamentos é um problema real e reduza os preços. A outra, num futuro mais imediato, será a introdução de mais fármacos genéricos. Em Espanha já temos dois anti-retrovirais genéricos e em dois ou três anos vai expirar, por exemplo, a patente do Efavirenz (um dos medicamentos mais prescritos também em Portugal), o que vai representar uma mudança importante e pode facilitar a redução de custos.”
Ainda que o facto de serem genéricos não crie a mínima preocupação a Gattel, pelas garantias de bioequivalência a nível europeu, poderá haver outras contra-indicações a optar pela factura mais barata. Calvin Cohen, que vê numa real prevenção da transmissão do vírus a única forma de travar uma despesa galopante com doentes que cada vez vivem mais anos medicados, alerta para o risco de se voltar a optar não pela “melhor medicação”, mas pela mais barata.
O especialista de Boston fez algumas das análises custo/benefício do comprido triplo que junta Efavirenz + Emtricitabina + Tenofovir [e que em Portugal, nos primeiros oito meses do ano, representou uma despesa de 20,2 milhões de euros, mais 43,5% que em igual período do ano passado] e revela que os ganhos para os sistemas de saúde do cumprimento da medicação justificam o gasto acrescido. “Nos EUA, no espaço de um ano, verificámos que havia uma diminuição de 25% nas admissões hospitalares de doentes que estavam a tomar só um comprimido por dia quando comparados com os que tomam mais de um.” Com os genéricos, o regresso a cocktails de medicação pode fazer disparar os custos com hospitalizações, defende. “Há pessoas que se dão bem a tomar vários comprimidos por dia e outras que não dão. Mesmo que sejam só 10%, terá mais custos.”
Determinação política para manter a aposta em tratamentos cada vez mais simples – que ao diminuir a carga viral de mais doentes têm o poder de travar novas infecções – e conseguir a chamar a atenção para uma infecção que continua a gerar demasiados novos casos todos os anos, são alguns dos desafios a curto prazo, dizem. “Os doentes hoje estão tão bem que as pessoas se esquecem quão feia esta doença é. Quem tiver menos de 30 anos se calhar já não se lembra e se calhar muitos políticos da nova geração não se lembram”, aponta Cohen.
 Para Gattel há outra linha de investigação que deve ser crucial: encontrar medicação que permita curar a doença e não tornar os seropositivos doentes crónicos. Sobre uma eventual vacina, sublinha que depois de alguns resultados promissores terem oferecido uma protecção de apenas 30%, o melhor é continuar a trabalhar sem essa hipótese: “Há que implementar os meios de prevenção sem contar com uma vacina nos próximos anos”, diz.

 Marta F. Reis/i – 01.11.2011

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