Moçambique:Tratamento antiretroviral – quem adere, conta sobre o sucesso


Aos 33 anos, Amina Bacar, residente em Maputo, descobriu que é portadora do vírus da Sida. Foi em meados de 2003 que decidiu fazer o teste de HIV, depois de ser várias vezes afectada por diferentes doenças, com particular destaque para a tosse convulsiva que chegou a durar um ano.

“Vinha doente há bons anos. Os médicos me aconselharam a fazer o teste no hospital Santa Filomena, no Alto-Maé. Quando fiz o teste e soube que tinha HIV, agradeci, pois acredita que estava enfeitiçada, o que seria muito pior”, contou.

Apesar da sua personalidade forte, Amina atravessou um momento difícil, uma vez que nessa altura, Moçambique ainda não tinha introduzido o tratamento com antiretrovirais.

Ela foi obrigada a fazer profilaxia com os comprimidos contrimoxazol durante alguns meses. Nessa altura estava fisicamente debilitada. Com 35 quilos abaixo do seu peso normal, o seu sistema de defesa do organismo estava muito fraco. Eram apenas 70 cópias de CD4 por milímetro cúbico de sangue, o que numa pessoa sem HIV varia em torno de 1000.

“A 20 de Setembro de 2003 comecei a fazer o tratamento antiretroviral. Não tive nenhum efeito secundário. Mas quando comecei a fazer o tratamento pensei que não fosse viver muito tempo porque muitos diziam que esses comprimidos reduzem a vida do paciente. O tempo passou e fui vendo que não é isso que acontece…”, disse Amina, demonstrando uma expressão facial radiante.

Os antiretrovirais passaram a ser a sua companhia aonde ia, e continuou a alimentar-se normalmente e a fazer pequenos negócios para ajudar no sustento da sua família.

Actualmente, o número de células CD4 gira em torno de 200. Esta quantidade não está no nível satisfatório, mas Amina conta que se sente muito bem, pois desde então não ficou mais internada no hospital e está fisicamente forte. “Sai dos 32 para 67kg de peso”, acrescentou.

Papel na família

Amina é mãe de três filhas. As duas mais velhas têm 24 e 21 anos, respectivamente, enquanto que a mais nova tem oito anos. Todas vivem sem o vírus da Sida no sangue, o que é motivo de orgulho para ela e seu esposo. Aliás, segundo suas palavras, as duas primeiras sabem do seu estado de saúde e fazem questão de acalmá-la em momentos de crise.

“Antes de descobrir que estava com HIV sofria com outras doenças de transmissão sexual, e foi só quando os médicos disseram que era SIDA que me aconselharam a usar sempre o preservativo”.

O seu esposo aceitou o uso do preservativo, mas nunca quis fazer o teste de HIV. “Ele dizia que só podia fazer o teste quando tivesse uma recaída, mas hoje em dia ele também está a fazer o tratamento antiretroviral”, salientou Amina Bacar.

Feitas as contas, Amina faz parte dos primeiros moçambicanos a beneficiar do tratamento antiretroviral e é um caso de sucesso no país, uma vez que o Ministério da Saúde calcula que do universo das pessoas que iniciaram o TARV em 2003, cerca de 30% abandonaram a terapia.

Outro caso inspirador

Paula Santos é nome fictício de uma outra mulher, exemplo de auto-superação. A sua história é real, apenas não quis revelar a sua identidade porque assim acordou com o seu esposo que afirma ser uma figura pública.

“Em 2003, decidi ir fazer o teste no Hospital Geral José Macamo (em Maputo). Foi por livre vontade. Nunca tinha sofrido de doenças…”. Paula conta que apesar de não ter suspeitas, estava preparada para tudo.

“A enfermeira deu voltas, e depois me perguntou se podia me revelar o resultado. Respondi positivamente, mas ela insistiu perguntado qual seria a minha reacção se fosse positivo. Eu disse que não ia fazer nada porque eu estava lá para saber do meu estado”, descreveu a nossa entrevistada.

E o resultado foi mesmo positivo. Confessa que ficou um ano sem revelar o resultado ao seu esposo, nem a mais alguém da família. Porém, acabou quebrando o silêncio em 2004.

“Foi difícil para ele acreditar porque eu estava bem. Nunca caí doente… Ele nunca negou que eu seguisse com o tratamento antiretroviral. O meu CD4 na altura estava bom (620) por isso não comecei logo o tratamento”.

“Nos meados de 2010 tive tuberculose, mas não foi muito grave. No dia 03 de Agosto iniciei o tratamento contra a TB e terminei em Abril deste ano. Já estou bem”, sublinha Paula.

Só a 26 de Dezembro do ano passado é que começou a fazer o tratamento com antiretrovirais.

Nove meses depois, sente que a sua qualidade de saúde melhorou.

Hoje, a sua maior satisfação reside no facto do seu esposo não ter o vírus, juntamente com os seus dois filhos, e lhe dar todo o apoio psico-social.

Activismo

A Amina e a Paula abraçaram o activismo na organização humanitária Médicos Sem Fronteiras. Lá, fazem advocacia na comunidade para a adesão à testagem voluntaria e ao tratamento antiretroviral.

Ambas sentem que as suas histórias conseguem inspirar muitas pessoas, e em função disso conseguem salvar muitas vidas.

Para além deste lado, as duas mulheres fazem parte dos chamados “grupos de busca de pacientes faltosos”. Elas percorrem diversos bairros para fazer a busca dos pacientes que faltam ao tratamento antiretroviral e que estão inscritos nas unidades sanitárias do Alto-Maé, Xipamanine, Chamanculo, entre outras da cidade de Maputo.

Ricardo Machava/Agência Sida – 07.10.2011

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