Preservativos em queda: os jovens já não têm medo da sida?


Gustavo já fez sexo desprotegido. D. Santos também, “mas só com a namorada”. Para Rita, os jovens rendem-se ao risco. E ao álcool. E a sida? “É uma doença dos outros”.

“Têm comportamentos de risco e a seguir vão fazer os testes. E as desculpas são sempre as mesmas: vergonha de perguntar ao parceiro, era alguém que julgavam conhecer, estavam bêbados e desleixaram-se…” Em síntese, “perdeu-se o respeito pela doença”. Deixam-se toldar pelo álcool, não colocam a questão ao parceiro – por vergonha ou porque acreditam que este lhes é fiel – gostam de arriscar, saborear o momento, não pensam, sentem que a sida é algo que só acontece aos outros: eis algumas da razões que levam a que 42% dos jovens continuem a não usar preservativo quando têm relações sexuais com um novo parceiro.

A percentagem – extraída de um estudo divulgado esta semana e que envolveu inquéritos realizados em 29 países, entre Abril e Maio de 2011, a mais de 6000 jovens entre os 14 e os 24 anos – deixou os especialistas portugueses entre o espanto e a preocupação: é o medo da sida a desaparecer?

“A percepção de que a sida deixou de ser uma coisa que mata para passar a ser uma doença crónica levou a uma diminuição da pressão pública”, interpreta o sociólogo Pedro Moura Ferreira, do Instituto de Ciências Sociais (ICS). Logo, “a atitude preventiva perdeu velocidade”.

“A mensagem de que a sida é uma doença crónica visava tirar o estigma à doença, mas a verdade é que fez com que as pessoas lhe perdessem o respeito. Nos anos 1990 era o terror, morriam imensos homossexuais e as pessoas tinham medo e preveniam-se. Agora, e à medida que a medicação se tornou mais eficaz, as pessoas comportam-se como se vivessem numa sociedade em que há tratamento para tudo. E não há”, contextualiza Josefina Mendéz, médica no Joaquim Urbano, no Porto, o único hospital de doenças infecto-contagiosas do país. Ao seu gabinete Josefina já viu chegar muita gente. “Cada vez mais novinhos – 18, 20, 21 anos. E é gente que leva anos fazendo testes, ou seja, têm comportamentos de risco e a seguir vão fazer os testes de rastreio. E as desculpas são sempre as mesmas: vergonha de perguntar ao parceiro, era alguém que julgavam conhecer bem, estavam bêbados e desleixaram-se…” Em síntese, “perdeu-se o respeito pela doença”.

Não é preciso colocarmo-nos à entrada do hospital para confirmar que é assim. “Normalmente uso preservativo, mas já aconteceu não ter comigo e avançar mesmo assim”, admite Gustavo Mendes, 20 anos, estudante na Academia Contemporânea do Espectáculo do Porto. Não é o que o medo de infecção por VIH não estivesse presente. “Já conhecia a pessoa. Perguntei-lhe se tinha alguma doença, ela disse que não e eu confiei.” Foi um risco calculado. “Se não conhecesse a pessoa, teria tido mais cuidado.”

Não muito longe daqui, D. Santos, universitário, 20 anos, também assume o sexo sem preservativo. Mas só com a namorada. “A primeira vez dela foi comigo, ela usa a pílula para não engravidar e, a mim, o preservativo incomoda-me.” Confia que, na sua relação, não há lugar a traições. “Se acontecesse, acredito que ela seria suficientemente esperta para usar preservativo.” E depois de uma pausa: “Ela não me ia fazer isso.”

Um e outro já fizeram testes de despistagem do VIH. No caso de Gustavo, por pressão dos pais. “Os meus cotas nisso são bué exigentes. Tenho que fazer todos os anos. Eles sabem que agora já ninguém espera pela noite de núpcias.”

Não só não esperam, como, muitas vezes, se deixam conduzir pelo embalo do álcool. “O consumo de álcool é muito estranho”, introduz Joana Ribeiro, 17 anos. Estranho? “Exagerado. Sai-se à noite e vê-se o pessoal todo louco.”

Rastas a cair pelas costas, Joana faz parte de um grupo de raparigas que descansa num murete de uma das praças do Porto. Começa por se mostrar estupefacta com os 42% que não usam preservativo, mas depois lembra-se do factor álcool. “É isso. Só pode ser isso.”

A mais velha do grupo, Filipa Soares, 23 anos, considera que para este problema concorre também o desleixo. “Eles sabem que a sida existe, e continuam a ter medo, mas, ao mesmo tempo, há a ideia de que só acontece aos outros e, por outro lado, têm receio de perguntar ao parceiro…” Pela parte que lhe toca, Filipa abastece-se de preservativos no IPJ. “O contrário seria brincar com a vida e isso eu não percebo.”

Para Rita Madureira, “os jovens gostam é de arriscar”. A vida a fluir ao minuto. “Se naquele momento é bom, então vive-se.” Tem 20 anos, enverga um traje académico, e afasta-se por minutos dos rituais da praxe para dizer ao PÚBLICO que não repete o comportamento espelhado no estudo. O que não quer dizer que não veja as suas conclusões corroboradas, quando olha à sua volta. “Os miúdos hoje começam a ter relações sexuais quando ainda não têm maturidade nem cabeça para pensar nas consequências.”

33,5% dos abortos até aos 24

A factura chega depois. Sob a forma de uma gravidez não desejada, por exemplo. No ano passado, 33,5% das interrupções voluntárias de gravidez (IVG) foram feitas em mulheres até 24 anos de idade, diz a Direcção-Geral de Saúde. Se nos ativermos à faixa dos 15 aos 19 anos, a percentagem fixa-se nos 11,4%. “Os rapazes tinham mais medo das gravidezes do que da sida e como agora já se pode abortar e é legal…”, comenta Sara Lança. Mas estas são as que chegam ao fim da linha. “A gravidez vai dando sempre para resolver, agora com a pílula do dia seguinte e assim”, diz Gustavo Mendes.

Mesmo assim – e apesar da descida sustentada do número de gravidezes adolescentes – em 2009 Portugal registou 4347 bebés nascidos de raparigas até 19 anos de idade, segundo o INE. É o suficiente para colocar o país “à frente de Espanha, França e Itália”, como lembra Duarte Vilar, da Associação para o Planeamento da Família. Ressalva, porém, não haver “dados que indiquem que os preservativos tenham sido substituídos pela pílula do dia seguinte ou pela IVG”.

Acresce que as doenças sexualmente transmissíveis estão longe de se circunscrever ao VIH e, apesar de não matarem, muitas delas deixam lesões para a vida. “Se pensarmos na infertilidade feminina, um terço tem por detrás sequelas deixadas por doenças sexualmente transmissíveis que afectam uma em cada 20 adolescentes, alerta Fernando Cirurgião, médico obstetra.

O número de jovens que têm relações desprotegidas com um novo parceiro aumentou de 2009 para 2011, segundo o estudo Informado ou a leste: o direito de estares informado sobre contracepção, realizado pela Bayer HealthCare Pharmaceuticals com o apoio de 11 organizações não governamentais. De 19 por cento para 40 por cento, em França, de 35 por cento para 43 por cento, na Grã-Bretanha. Portugal não oferece razões para se pensar que o cenário é diferente. “Os inquéritos dos últimos tempos apontavam para o uso frequente do preservativo na primeira relação e depois para o seu abandono progressivo com o tempo da relação. Estes dados parecem mostrar que não é assim”, interpreta Pedro Moura Ferreira. Sobretudo na faixa dos 14 aos 24 anos. Os tais que, na opinião de Duarte Vilar, “nunca chegaram a ter medo da sida e que continuam a vê-la como uma doença dos outros”.

Talvez porque nunca viram ninguém morrer com sida. Alguns seriam demasiado novos. Outros nem sequer tinham nascido quando a pandemia da inicialmente conhecida como a doença dos três H (homossexuais, hemofílicos e haitianos) começou. Sem campanhas que os acordem “e com uma Educação Sexual nas escolas que só aqui e ali sai do papel”, não têm grandes razões para se porem a pensar que “o vírus se tornou entretanto altamente democrático e estendeu-se ao abecedário todo”, como frisa Eugénia Saraiva, da Liga Portuguesa contra a Sida.

TV fechou-se às campanhas

Faltam assim campanhas como aquelas que, há uns anos, irrompiam pelos horários nobres das televisões. “Nesta questão, como noutras, não podemos de todo descansar sobre aquilo que pode ter sido adquirido há alguns anos”, aponta Cirurgião. Por que é que não há mais campanhas? “Porque a lei da televisão mudou e para pior”, responde Margarida Martins, da Abraço. “Quando mudaram as regras da publicidade para os sete minutos [tempo máximo de publicidade em cada intervalo], nós deixámos de ter acesso à televisão. E fazer uma campanha para passar às quatro da manhã não vale a pena.”

Acresce que associações que, como a Abraço, viviam do mecenato das empresas viram os apoios cortados em cerca de 50 por cento. “Com a crise no país, as empresas deixaram de apoiar como dantes e, portanto, o trabalho que ainda vamos fazendo é por carolice.” A Liga Portuguesa contra a Sida move-se em águas semelhantes. “As nossas campanhas são sempre realizadas pro bono e pelos amigos que nos acompanham há anos”, conta Eugénia Saraiva.

O que este cenário de asfixia não explica é o tom português suave das poucas campanhas que, embora mais espaçadamente, se foram fazendo nos últimos anos. “Acho que são demasiado soft. Deviam ser mais realistas. Se o vírus pode matar, então as campanhas deviam mostrar isso sem aquelas pessoas que aparecem todas bonitinhas e maquilhadas”, critica Sara Lança. “É preciso puxar os miúdos para a realidade”, concorda Joana Ribeiro.

Os anos que Josefina Mendéz passou a trabalhar com infecto-contagiosas dizem-lhe o mesmo. “Estas campanhas deviam ser mais agressivas e reforçar a ideia de que ninguém está livre. A mim que me importa que [o ex-basquetebolista norte-americano] Magic Jonhson apareça a dizer que tem o VIH? Ele aparece na televisão, aquela caixinha que tenho em casa, mas o problema continua longínquo. Agora, se o senhor do talho onde compramos a carne tiver sida, continuaremos a lá ir? E o professor do nosso filho? O importante aqui é reforçar a ideia de que podemos ser nós os próximos a tropeçar na doença”, sustenta esta médica, para quem “é preciso que alguém desperte os miúdos para este tema”.

O problema não está na falta de informação. Afinal, tudo o que cada um queira saber sobre VIH está no poço sem fundo da Internet, basta um click. Falta é alguém que intermedeie essa informação, segundo Fernando Cirurgião. “Alguém que filtre e que discuta e que consolide essa informação”, especifica o obstetra, para quem a percentagem de abortos em adolescentes só pode ser fruto “dessa falha”. O estudo, aliás, revela que 10% dos inquiridos desconhecem os fundamentos básicos do período menstrual da mulher. E quase 50% dos jovens alegam ter sido mal informados sobre contracepção pelos seus amigos.

Pena assim que, além de campanhas, falte educação sexual nas escolas. “Não funciona e a que vai funcionando é à base da carolice de algumas ONG”, lamenta Cirurgião. “A discussão acerca da educação sexual nas escolas perdeu-se ou não foi avaliada e estes dados deviam fazer-nos reequacionar toda essa problemática”, concorda o sociólogo Pedro Moura Ferreira. A médica Josefina Mendéz já andou pelas escolas a falar de VIH e gravidezes e formas de os prevenir. “É difícil. Numa aula disse que os preservativos deviam estar mais acessíveis e os pais ficaram chocados, pensaram que eu estava a convidar os jovens a fazer sexo. Mas o contrário é negar a realidade: os miúdos fazem sexo e correm o risco de se infectar, ponto.” Por essas e por outras, Eugénia Saraiva faz sempre questão de sublinhar que a sua associação nunca distribui preservativos gratuitamente. “Damos um preservativo, mas sempre com informação sobre as várias infecções sexualmente transmissíveis.”

Para que não haja mais gente a ter que adormecer com a imagem que tantas vezes se intromete nos pensamentos da médica Josefina Mendéz. “Nunca me mais esqueço de uma miúda que me entrou no gabinete com 14 anos. Estava grávida e tinha VIH. Era uma menina. A sua imagem vai-me ficar na retina para sempre.”

Aos que julguem que, mercê dos tratamentos, viver com o VIH é o mesmo que ter diabetes responde Graça Rocha, que trabalha há muitos anos com crianças e adolescentes infectados no Hospital Pediátrico de Coimbra. “Apesar das melhorias, o estigma não desapareceu. Os jovens que conheço sentem o peso da sociedade e a maioria opta por viver a doença em segredo.”

Natália Faria/Público – 02.10.2011

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