REPENSAR A LUTA CONTRA O VIH


Há trinta anos, o mundo teve a primeira suspeita de uma catástrofe iminente quando cinco rapazes gays, em Los Angeles, foram atingidos pela doença que ficou conhecida como VIH/SIDA. Hoje, a doença tem um verdadeiro impacto mundial, retirando 1,8 milhões de vidas anualmente – o equivalente a eliminar a população de Washington DC, três vezes por ano.

É claro que tem havido avanços científicos notáveis desde 1991. Os cientistas descobriram que um retrovírus que não se conhecia era a causa da SIDA, e determinaram que o vírus era, essencialmente transmitido através de contacto sexual. Eles criaram testes que podem atestar se uma pessoa é portadora de VIH e avaliar a progressão da doença. E conceberam também medicamentos anti-retrovirais que tornam possível sobreviver à infecção por VIH, e viver com ela como uma condição crónica.

Paralelamente a estes avanços, os políticos, os defensores dos direitos humanos e as pessoas portadoras de VIH/SIDA lutaram bastante para reduzir o estigma e a discriminação. E fundos sem precedentes foram investidos no tratamento do VIH e na prevenção da doença. Em 2008, o total de meios para programas do VIH em países com rendimentos médios a baixos era 50 vezes superior ao que se observava apenas 12 anos antes.

Contudo, apesar dos progressos significativos, o número de portadores de VIH/SID continua alto. Há 2,4 milhões de novas infecções por ano e 34 milhões de pessoas a viverem com o VIH/SIDA que precisam de tratamentos para continuarem a viver. No mundo desenvolvido há ainda, e de forma alargada, uma percepção errada de que a batalha contra o VIH/SIDA está ganha. Na realidade, a crise apenas se tornou menos visível.

A África subsariana tem 10% da população mundial, mas alberga 70% da população que vive com VIH/SIDA. Por todo o continente africano, é estimado que a doença tenha reduzido as taxas de crescimento médias nacionais entre dois a quatro pontos percentuais por ano.

Uma equipa de investigadores liderados por Bernhard Schwartländer, que é o director de prova, estratégia e resultados da ONUSIDA, calculou que, até 2015 vai ser necessário um gasto anual de pelo menos 22 mil milhões de dólares para se poder alcançar o acesso universal à prevenção, aos tratamentos, aos cuidados e ao apoio de pessoas com VIH.
A ONUSIDA e a Fundação Kaiser Family estima que em 2010 os doadores contribuíram com 6,9 mil milhões de dólares para a prevenção, cuidados, tratamentos e no âmbito do combate ao VIH – menos 10% que em 2009. Como resultado da crise financeira mundial e do cansaço dos financiadores, a Dinamarca, a Alemanha, a Holanda, a Noruega, a Espanha, a Suécia, os Estados Unidos e a Comissão Europeia reduziram os seus gastos.

Esta realidade lamentável torna praticamente impossível assegurar o financiamento anual de 22 mil milhões de dólares até 2015. Por isso, é pertinente levantar outra questão: o que é nós podemos alcançar apenas com um pequeno aumento do financiamento actual? É isso que o Centro de Consenso de Copenhaga e a Fundação Rush estão a ponderar num novo projecto, “RethinkHIV”.

Há tantas opiniões quantas as opções disponíveis sobre qual devia ser a principal prioridade para os financiadores. Nós falamos com pessoas portadoras de VIH, um pouco por todo o continente africano, que têm perspectivas bastante diferentes. Em Kawangware, no Quénia, Esther, de 38 anos, defendeu apaixonadamente mais reformas político-sociais. “Eu acredito que o VIH não é o único assassino. O estigma e o stress matam de forma mais rápida”, disse-nos. Em Mungushi, na Tanzânia, por outro lado, Rehema, de 28 anos, disse-nos que a assistência económica iria fazer uma grande diferença. “É muito difícil tomar um medicamento anti-retroviral sem qualquer comida no estômago e quando me preocupa saber onde é que vou viver”, disse ela.

No “RethinkHIV”, convidamos alguns dos mais reputados economistas, epidemiologistas e demógrafos para integrarem esta discussão vital sobre as prioridades. A investigação que eles vão produzir vai ter um contributo fundamental. Equipas de investigadores já elaboraram 18 estudos onde identificam as formas mais eficientes para combater a epidemia, tendo em conta aquilo que já se provou que funciona. E aquilo que pode ser melhorado ou reproduzido noutras regiões de África.

Todos eles já calcularam os custos e os benefícios das soluções que propuseram e compete-lhes agora convencer um painel de cinco economistas com reputação mundial, incluindo três laureados com um Nobel, de que têm as melhores soluções. As descobertas apontadas pelos laureados com o Nobel vão indicar o caminho mais eficiente para o financiamento adicional. Esta abordagem, o processo do “Consenso de Copenhaga”, é a mesma que tem sido aplicada de quatro em quatro anos nos desafios mundiais, e vão ter lugar agora em 2012.

A premissa é simples: nenhum dólar pode ser utilizado duas vezes. Mil milhões de dólares gastos num conjunto de medidas não podem ser usados em outras medidas. Por isso, onde é que é melhor gastar mais, em primeiro lugar? Muitas vezes, esta simples questão não é colocada, porque fazê-lo significa escolher entre muitas estratégias populares, cada uma das quais com os seus entusiásticos apoiantes.

Ao sublinhar a eficácia de algumas opções – ou apontar para escolhas políticas que implicam mais investigação – a nova investigação e as descobertas apontadas pelos prémios Nobel podem ajudar os doadores na escolha das melhores opções sobre para onde deve ir o financiamento.

Trinta anos após a descoberta do VIH/SIDA, assistimos a impressionantes avanços científicos e políticos. Mas o VIH/SIDA continua a ameaçar diariamente milhões de pessoas, prejudicando o desenvolvimento e destruindo demasiadas vidas. Com a atenção e com o dinheiro em jogo, é fundamental que intensifiquemos a nossa luta contra esta doença, integrando no nosso arsenal as lições da análise custo-benefício.

Bjørn Lomborg
© Project Syndicate, 2011.
www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Laranjeiro

Jornal de Negócios – 29.09.2011

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