Macau:Prevenir para não remediar


Sexo sem protecção e partilha se seringas são as duas grandes causas por trás  dos 11 casos de sida já contabilizados para 2011. Augusto Nogueira pede mais fundos para a prevenção e o início da educação sexual.

É preciso investir na prevenção e apoiar mais as organizações que diariamente trabalham no terreno para uma diminuição dos casos de sida. Quem o diz é Augusto Nogueira, presidente da Associação de Reabilitação de Toxicodependentes de Macau (ARTM), face aos novos números de contágio, referentes ao primeiro semestre de 2011.

Para o responsável, os números só baixam com mais troca de seringas e uma adequada política de educação sexual para os mais novos. O consumo de droga, por seu lado, deve ser desincentivado através da oferta de alternativas de entretenimento saudáveis.

De acordo com dados dos Serviços de Saúde, citados pela Rádio Macau, na primeira metade deste ano registaram-se 11 novos casos de sida. Destes, quatro devem-se a transmissões via drogas injectáveis e outros quatro a relações sexuais sem protecção, sendo que não foi possível apurar a origem da transmissão dos outros três casos.

Augusto Nogueira ficou surpreendido com os números relativos ao contágio via seringas. “Quatro novos casos, a sério? Não estava à espera. Mas de certa forma compreende-se, as pessoas estão aflitas, em situação de ressaca, e muitas vezes acabam por correr riscos”, lamenta. “Preferíamos que fossem zero – esse é o nosso objectivo – mas é sinal que temos de continuar a trabalhar para que as pessoas não partilhem seringas.” A ARTM abriu, na semana passada, mais um centro de apoio, onde também é possível trocar seringas.

Nogueira insiste na ideia de que é necessária mais prevenção e mais apoio financeiro para quem trabalha no terreno. “As associações que trabalham na área da prevenção da sida em geral, não apenas no campo da toxicodependência, têm bastantes dificuldades em fazer as suas actividades por falta de fundos para contratarem mais pessoal, o que as obriga a manter um número muito limitado de horas de outreach”, diz.

Os números referentes aos novos casos de sida foram revelados durante a cerimónia de atribuição de prémios do Programa de Apoio Subsidiário para a Educação sobre a Sida, onde Chan Wai Sin, subdirector dos Serviços de Saúde, chamou a atenção para a importância da promoção de programas de educação sobre sexo seguro. O mesmo defende o presidente da ARTM – também membro da Comissão de Luta contra a Sida de Macau – que avançou que só no final do mês é que o tema da educação sexual nas escolas vai ser debatido, na reunião plenária da comissão.

Nogueira considera o assunto “muito importante” e relembra um estudo recente da ARTM com resultados “preocupantes”: “Muitos jovens têm um grande desconhecimento em relação à sida e às formas de transmissão sexual. Muitos chegaram a dizer que o sexo anal era a melhor forma de prevenir a sida”.

Na sessão onde se divulgaram estes novos casos, Chan Wai Sin disse, citado pela Rádio Macau, que a RAEM continua a ser uma região com “baixa taxa de prevalência de casos de sida”.

Os números não representam, para já, um aumento em relação ao ano passado. Em Setembro de 2010 eram 21 os casos registados, quase o dobro dos deste ano (num período de Janeiro a Junho). No final do ano passado o número subiu para 27.

Nos últimos 25 anos, o principal meio de transmissão tem sido sempre o contacto sexual não protegido, sendo o uso de drogas a segunda maior causa, com números bem mais reduzidos. Em 2009, por exemplo, dos 17 casos, 11 deveram-se a relações sexuais e três ao uso de drogas injectáveis. Essa proporção tem-se mantido estável. Este ano, no entanto, os valores equiparam-se: foram tantos os casos de transmissão por via sexual como os por drogas injectáveis.

Desde 1986, ano do primeiro registo de casos de sida em Macau, registaram-se, até hoje, 465 casos – 215 homens e 250 mulheres.
De acordo com os Serviços de Saúde, a principal via de transmissão é a sexual – 264 casos, nos últimos 25 anos. Neste período, a segunda causa, com 67 casos, é o consumo de drogas intravenosas. A transmissão de mãe para filho só registou um caso, em 1999.

O ano com maior número de casos foi 1993, quando foram detectados 37 contágios.

O perigo do aborrecimento

O número de casos de sida originados pelo contágio via seringa pode não ser muito elevado, mas representa a ponta do icebergue, é uma amostra de um problema maior: a quantidade de jovens toxicodependentes em Macau. Nos centros de recuperação da ARTM, conta Nogueira, há cada vez mais jovens internados devido ao consumo de quetamina, uma droga de grande popularidade.

O responsável aponta o dedo ao Governo, acusando-o de não disponibilizar  infra-estruturas que permitam alternativas saudáveis. “Os jovens vivem num marasmo, num aborrecimento, e acabam por ser aliciados pelo crime, pelas seitas, pelas drogas.” Nogueira acredita que isso acontece por “não terem formas de entretenimento nem sítios para onde ir”. Mas admite que há vontade, por parte dos mais novos, de praticar actividades saudáveis: “Não é raro vermos jovens a praticar skate ou danças nos pátios dos prédios”.

Foi nesse sentido que a ARTM criou o espaço Be Cool, na Taipa, um centro diário para jovens dos 12 aos 19 anos, onde se oferecem várias actividades de lazer e aconselhamento. Lá pratica-se música, cozinha-se e vêem-se filmes, entre outras actividades, mas o espaço é limitado e não dá para tudo, aponta Nogueira.

Segundos dados das forças de segurança, muitos casos de delinquência juvenil estão associados ao consumo e tráfico de droga. O presidente da ARTM acredita que antes da punição é preciso pensar na prevenção: “Quando se pensa em jovens e criminalidade pensa-se logo ‘vamos castigá-los’, mas em contrapartida não se oferece sequer um espaço onde eles possam andar descansadamente de bicicleta sem serem atropelados por um camião”. Como esses espaços não existem, “os jovens vão para os sítios do costume, os karaokes, onde conhecem certos tipos de pessoas e são facilmente influenciados”.

No que diz respeito à toxicodependência nas camadas mais jovens, o responsável está preocupado com as estruturas de apoio escolar, já que a ARTM tem casos de jovens internados que frequentavam estabelecimentos de ensino. “Os pais acabam por ter de escolher – uma decisão difícil – entre tirar o filho da escola e colocá-lo em tratamento, ou deixar andar”. As infra-estruturas em Macau “não permitem a conjugação das duas coisas”, mesmo que algumas ofereçam algum apoio, “nunca têm a valência da escola”. Augusto Nogueira remata, lançando o apelo: “É urgente pensar numa forma de ajudar estes jovens”. I.S.G.

Ponto Final – 14.09.2011

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