Prostitutas de rua pensam mais em suicídio


Estudo feito no Grande Porto será apresentado para a semana, na China, num congresso mundial sobre a matéria.

O psicólogo Alexandre Teixeira está de partida para Pequim. Vai ao congresso da International Association for Suicide Prevention explicar que as prostitutas de rua pensam duas vezes mais em suicídio do que os jovens adultos. A comunicação resulta da tese de mestrado que defendeu, no ano passado, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.

Bateu as ruas do grande Porto, com técnicos de organizações que lidam com trabalhadoras do sexo, até já não haver portuguesas que com ele quisessem conversar. Metade das 52 entrevistadas conhecia alguém que já tentara o suicídio. Um quarto tinha familiares com histórias dessa natureza. Quase metade já o tentara também. À volta de 30 por cento já o tinham feito três ou mais vezes.

Não encontrou estudos semelhantes, apesar da sobreposição de factores de risco como o estigma, a violência familiar, a violência laboral, o uso de drogas, a doença mental. “Os que estudam suicídio pouco querem saber de prostituição; os que estudam prostituição pouco querem saber de suicídio”, nota. “As prostitutas de rua já estão no lugar mais baixo da hierarquia das mulheres, no lugar mais baixo da hierarquia das prostitutas. Estudar isto do suicídio é reforçar o estigma: além de prostitutas, ainda se matam.”

Os técnicos que junto delas viu fazerem educação para a saúde nem se lembravam de lhes perguntar: “Já pensou suicidar-se?” A maior parte dos que colaboraram com Alexandre Teixeira julgavam que essa “não era uma questão presente”. Ora, “o estudo mostra que essa questão está muito presente – quer os pensamentos suicidas, quer as tentativas de suicídio”.

Não é o acto de vender sexo que as leva a isto. A violência está muito presente na vida destas mulheres. Há quem passe por elas na rua e as insulte, lhes atire frutos e outros produtos. “Elas usam estratégias de defesa, mas isso fragiliza-as”, diz. Apesar desse quotidiano, “é na esfera íntima e familiar que 65,2 por cento coloca o ónus das tentativas de suicídio”.

O grosso (47,8 por cento) relaciona-se com conflitos familiares. “Quando contam à família o que fazem para ganhar a vida, a família tem tendência a afastá-las”, exemplifica. Depois, há questões relacionadas com os filhos. “Houve uma senhora que tentou matar-se porque a comissão de protecção de crianças e jovens lhe retirou o mais novo”, torna a exemplificar.

O psicólogo, que trabalha na Agência para o Desenvolvimento de Lordelo do Ouro, identificou apenas uma tentativa de suicídio decorrente de uma “vivência profissional traumática”. “Uma senhora foi sequestrada e levada para um sítio isolado. Foi abusada sexualmente e abandonada ali”, relata.

Ana Cristina Pereira/Público – 10.09.2011

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

  • Indique o seu endereço de email para subscrever este blog e receber notificações de novos posts por email.

    Junte-se a 24 outros seguidores

%d bloggers like this: