“Tudo o que se passa em Angola vem para Portugal”


Cientistas procuram avançar na investigação do VIH-SIDA.

Actualmente existem 40 mil indivíduos infectados pelo VIH em Angola. Um número que continua a crescer. Em Moçambique, o cenário piora, um milhão e 400 mil pessoas têm SIDA.

Num encontro internacional acolhido pela Fundação Luso-Americana (FLAD) que se realizou esta semana, em Lisboa, Nuno Taveira e Francisco Mbofana explicaram ao Ciência Hoje os principais progressos na investigação sobre esta doença.

“Terminámos recentemente um estudo cujo resultado principal dos últimos anos foi caracterizar a diversidade genética do VIH em Angola e verificámos que é imensa. Isso pode ter impacto na resposta à terapêutica, a nível dos testes de diagnóstico, mas sobretudo mostrámos que a transmissão de vírus resistentes aos anti-retrovirais é ainda muito residual ou inexistente. Esta boa notícia significa que os regimes terapêuticos que vão a ser utilizados vão ser eficazes durante um período de tempo que pode ir até aos sete anos ou mais”, afirma Nuno Taveira, investigador na Unidade dos Retrovírus e Infecções Associadas, Centro de Patogénese Molecular (CPM).

Segundo o também professor do Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz, o próximo passo é investigar a transmissão vertical da SIDA. “Queremos desenvolver novos testes para identificar precocemente a transmissão de mãe para filho, que ainda é muito elevada em Angola, cerca de 15 por cento. Queremos também fazer estudos que permitam investigar se há alguma relação entre os diferentes subtipos de VIH e a sua patogenicidade. Há tantos subtipos diferentes que nós queremos saber se uns são mais patogénicos que outros ou não e se isso tem a ver com as características de replicação do vírus”, explica.

Mas o investigador também tem interesse em investigar a tuberculose. “Queremos fazer um estudo integrado de VIH e tuberculose porque 18 por cento dos indivíduos que têm VIH também têm tuberculose. Esta co-infecções contribuem para que as pessoas vivam menos tempo e com mais dificuldades”.

Nuno Taveira é investigador do Centro de Patogénese Molecular

Nuno Taveira é investigador do Centro de Patogénese Molecular

Para atacar o VIH mas também a tuberculose, Nuno Taveira vai iniciar um trabalho onde vai “caracterizar a tuberculose em Angola, se as bactérias são ou não resistentes aos antibióticos que estão a ser utilizados em primeira linha. Vai ser a primeira vez que isto vai ser feito e esperamos ter as respostas nos próximos quatro anos porque recentemente ficámos a saber que este projecto foi financiado pela FCT”, refere.

O cientista revela que tem sido difícil financiar este estudo, até que a FCT decidiu apoiar, o que “reflecte uma mudança de atitude em relação a África e ao VIH”. É fundamental que as pessoas percebam que “tudo o que se passa em Angola, mais tarde ou mais cedo, vem para Portugal. Temos muita gente a trabalhar lá, muita gente de lá que vem para cá, por isso, tudo o que pudermos fazer por Angola para combater a SIDA e a tuberculose vai-se reflectir positivamente em nós”, conclui.

Diferenças na prevalência

“Moçambique é o país com o maior número de novas infecções de VIH, tendo mais de cem mil novas por ano. Actualmente estima-se que existam um milhão e quatrocentas mil pessoas infectadas”, afirma Francisco Mbofana.

De acordo com o director científico do Instituto Nacional de Saúde (INS) de Moçambique “a epidemia continua a ser um grande problema de saúde pública pois não houve qualquer redução na sua prevalência”. No entanto, ela é distinta nas três regiões do país.

Francisco Mbofana é director científico do INS de Moçambique

Francisco Mbofana é director científico do INS de Moçambique
 
Existem “importantes diferenças entre as várias regiões do país. O sul tem mostrado que a epidemia tende a subir, comparado com o centro e o norte, que mostram tendência de estabilizar”, afirma Francisco Mbofana.

“Dado que a epidemia afecta mais as zonas urbanas e considerando que a zona sul tem uma população maior quando comparada com o resto do país, pode ser uma explicação para existirem mais infectados nessa área. Mas outra razão pode estar também associada com a circuncisão masculina. Esta é uma intervenção que pode reduzir a infecção entre os homens e temos verificado que a circuncisão é mais frequente na província que tem menos infectados dentro da zona sul”, explica.

O INS de Moçambique tem “tentado compreender porque existem diferenças de prevalência no país. Segundo o investigador, a epidemia tem um caminho, surge num sítio e segue um caminho. E pode ser que o facto de o sul estar numa zona geográfica onde a epidemia é muito alta, isto é, nos países vizinhos, pode também influenciar aquilo que hoje são os níveis da epidemia” nesse local.

A informação sobre as diferenças que existem no país a nível do número de infectados por zona e as causas das infecções “ajuda-nos a conhecer a nossa epidemia e a definir prioridades em torno de intervenções para a reduzirmos”, refere Francisco Mbofana. Mais acrescenta: “Daqui a dois ou três anos queremos reduzir as novas infecções”.

 
 Susana Lage/CiênciaHoje – 08.09.2011

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