António Arnaut: “Gasta-se demasiado em medicamentos”


É conhecido como o “pai” do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e é com preocupação assumida que assiste ao plano de cortes de cerca de 800 milhões de euros definido pelo Governo. António Arnaut, 75 anos, acredita que é possível reduzir o orçamento da Saúde em 500 milhões atacando apenas nas gorduras e sem pôr em causa o SNS.

 

Em entrevista ao site Dinheiro Vivo, Arnaut diz que “o Governo quer cortar 800 milhões, quando a ‘troika’, depois de ter estudado tudo muito bem, lhe exigiu um corte de 500 milhões. Não se compreende que tenha querido ultrapassar a “troika” num sector tão sensível. Esses 500 milhões podiam ser reduzidos sem pôr em causa o Serviço Nacional de Saúde e cortando apenas no supérfluo, nas gorduras. Mas cortar mais 300 milhões já não é possível”.

 

O “pai” do SNS acredita que “há muitos desperdícios na saúde”.

 

“Esse dinheiro mal gasto está no excesso de medicação, na própria medicação que é receitada, no excesso de meios auxiliares de diagnóstico, no excesso de horas extraordinárias. Mas quando falo em horas extraordinárias não estou a referir as que são necessárias, mas nas muitas que são pagas e não são feitas”, diz, acrescentando que “as gorduras, que podiam ser cortadas, estão ainda no excesso de alguns administradores e na falta de aproveitamento das capacidades dos meios. Um exemplo disto são os blocos operatórios. Havia, por isso, muito espaço de manobra para cortar 500 milhões de euros sem afectar a universalidade e gratuitidade do SNS”.

 

Questionado sobre como vão, então, ser acomodados os 300 milhões que o Governo decidiu sobrepor ao valor definido pela “troika”, Arnaut responde que “vão começar a cortar, já estão a faze-lo, nomeadamente nos transplantes. A redução dos incentivos aos transplantes é uma forma de os travar. Esquecendo que há doentes que se não forem transplantados ficam doentes e o seu tratamento é mais caro: fazer hemodiálise toda a vida fica mais caro do que transplantar um rim. Estes 300 milhões de euros adicionais, incluindo aqui os cortes de 11% nos hospitais, são gravíssimos. Isto é tirar o SNS da Constituição. Estou muito preocupado. Este ministro é um excelente economista, mas não tem sensibilidade social. Dia 15 de Setembro, o Serviço Nacional de Saúde faz 33 anos de publicação de lei – é a idade de Cristo e é justamente nesta altura que são anunciados tantos cortes”.

 

Arnaut defende que “as taxas moderadoras podem ser aumentadas, não muito. E há um princípio básico que tem de ser acatado: o valor terá sempre de ser simbólico porque a função das taxas é moderar, não são um co-pagamento. Admito também que seja revisto o actual sistema de isenção no pagamento dessas taxas. Há muitas isenções e nalguns casos talvez não se justifiquem”. No entanto, o “pai” do SNS diz não concordar “que as taxas moderadoras sejam definidas em função do rendimento, porque essa diferenciação já é feita pela via fiscal: quem ganha mais, paga mais impostos”.

Lusa – 08.09.2011

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